Temos aqui um fato peculiar: o número cada vez maior de amantes do futebol que ignoram a seleção brasileira (os mais radicais chegam a torcer contra), alegando, entre outros, falta de identidade com o time canarinho.
Por absoluta ignorância, não tenho conhecimento de fato parecido em outros países, mas aposto minhas pelotas que tal fenômeno não se repete com tamanha eloquência em outras terras. Pelo contrário. Torcedores parecem fiéis às seleções de seus países, a julgar pela lotação esgotada nos estádios em dias de jogos de eliminatórias, ou até em amistosos internacionais.
O que esperar da seleção brasileira.
Eu, que tenho minha primeira memória no futebol advinda da copa de 82, na derrota para a Itália, espero ver dribles, futebol espetacular e muitos gols – embora saiba que isto não exista nem em videogame. E é algo que nenhuma outra equipe me faz crer exequível. Daí a frustração; se minha expectativa é por uma cerveza Norteña gelada, decepcionado ficarei se me servirem uma Nova Schin quente. 2006 é o caso célebre, mas como já foi esgotado, deixá-lo-ei de canto, até para poupar o solitário e desafortunado leitor que, persistente, ainda não mudou de site.
Quando meu time (clube) está em campo, quero vê-lo triunfar, e pouco me importa a qualidade de seu futebol – quanto mais destemida for sua performance, melhor. Aceito de bom grado uma vitória de meio a zero, com gol impedido aos 47 do segundo (acho que Lazaroni inventou esta definição, antes de perder a Copa de 90, quando ainda deixavam-no falar ao microfone), com aquele futebol feio, que cariocas e colorados tanto desprezam.
Quando me ponho a acompanhar uma partida entre 2 equipes pelas quais não nutro simpatia, espero jogo-bem-jogado, com chances de gol, nervos à flor da cútis, velocidade… enfim: aquilo que todo mundo espera de um bom jogo de futebol e nem sempre acontece.
Mas quando a seleção brasileira está em campo, eu quero mais. Não me contento com uma vitória suada contra adversário inferior, conquistada graças ao esforço de um ou dois jogadores que se salvam num contexto de ruindade generalizada. E como essa situação é bastante frequente, muitas vezes me volto contra a seleção do país que tem Sarney e Collor no Senado, afinal, se somos tão superiores, se formamos tantos craques, por que é tão difícil escalar 11 e montar um time de qualidade e, acima de tudo, com hombridade?
A história recente da seleção mostra que somos mestres em escalar equipes de traficantes/usuários de drogas e fanáticos religiosos. E o que dizer dos cortes de cabelo? O estilo capilar de nossos viciados, digo, de nossos craques de seleção é de causar inveja, além de ser difusor de tendências estéticas entre a juventude.
Acredito que muita gente se identifique com o perfil de tipos como Adriano e Robinho, mas o repúdio é notório.
Se não é possível jogar um futebol vistoso, por que então não nos livramos dos maus elementos, que invariavelmente fracassam na tentativa de reviver a tradição do futebol brasileiro, e montamos uma seleção de jogadores aptos a praticar futebol com garra, técnica e aplicação tática? É claro que precisaríamos de um técnico para impor uma nova visão, menos contaminada e mais pragmática, sem CBF e patrocinadores interferindo na escalação da equipe, sem tanta gente interessada na valorização desse ou daquele jogador.
Quero poder torcer pelo Brasil tanto quanto um uruguaio vibra com sua Celeste.
voa, canarinho voa
Agosto 4, 2009 por LEONARDO ST.